A história de um Garmin que se perdeu fora do país

Como o Atletismo mudou a minha vida! - Vida de Maratonista

Hoje, dia 7 de agosto, celebra-se o Dia do Maratonista. Uma comemoração que não passa indiferente a nenhum maratonista. Quanto mais não seja, num curto espaço de segundos, todos nós recordamos algumas aventuras em maratonas. No meu caso, entre as várias que hoje vieram à superfície da minha memória, decidi dedicar a minha atenção à Maratona de Amesterdão do ano 2016. A minha primeira participação numa prova internacional. Na altura, alcancei um recorde pessoal na distância (2 horas, 40 minutos, 10 segundos), que agora perdeu algum valor por já ter sido ultrapassado. Porém, registos à parte, tenho uma peripécia muito difícil de esquecer, até porque nunca me aconteceu algo do género. Nem antes, nem depois. A história real. que vou contar aqui, já foi anteriormente partilhada no meu artigo sobre os relógios GPS. Contudo, tendo em conta este dia tão especial, creio que chegou o momento de a contar com mais detalhe.

 

Maratona de Amesterdão 2016

De Portugal para a Holanda, segui com os equipamentos de corrida necessários e recomendados para a maratona, entre os quais o meu relógio GPS. Um Garmin Forerunner 230, que ainda hoje é o meu parceiro assíduo de treino. Por vezes, tenho-o no meu pulso só para registar o treino ou a prova para a posteridade. Mas seja com for, ele acompanha-me sempre. É como um grande amigo que está sempre ali quando precisamos e se contam pelos dedos as vezes que nos desiludem durante uma vida. Em relação a este relógio, será que o seu comportamento em Amesterdão foi uma atitude premeditada? Ou um acto involuntário? Avaliem por vocês mesmos.

Juntamente com o grupo de viagem a que me associei para esta aventura, aterrei em Amesterdão na sexta-feira antes da maratona. A prova era no domingo e neste dia não houve treino. Todavia, na véspera do grande dia (sábado), a folga não se repetiu. Logo pela manhãzinha, ainda o Sol não tinha nascido, fui com mais 3 ou 4 atletas fazer uma corrida leve pelas ruas de Amesterdão. Como sempre, sincronizei o relógio para registar o treino. Aparentemente, tudo normal.

No domingo, já na box de partida e com o aquecimento feito, também não surgiram problemas com a sincronização do relógio. Pouco depois, deu-se o tiro de partida e lá fui eu, juntamente com milhares de atletas, para fora do Estádio Olímpico, com o intuito de a ele regressar o mais depressa possível. Antes de prosseguir, importa referir que a marca final alcançada das 2 horas e 40 minutos era algo que eu tinha dentro das minhas previsões. No entanto, também tinha menos ou mais 2 ou 3 minutos que esse registo. Tudo o que fosse dentro desse intervalo, era uma grande conquista para mim e eu acreditava ser possível. Por outras palavras, tudo o que fosse um registo médio entre os 3:45 e os 3:55 minutos por quilómetro estaria dentro do normal e programado. E eu fui um atleta disciplinado, como é possível ver na imagem que se segue:

 

Maratona de Amesterdão 2016 - A história de um Garmin que se perdeu fora do país

 

 

Mais a mais, sentia-me bastante bem. Solto e relaxado. Ia não apenas a desfrutar da minha primeira experiência internacional, de um cenário completamente novo, mas também das excelentes sensações que tinha. Contudo, com o passar dos quilómetros, comecei a achar que algo não estava bem. Primeiro, porque a prova tinha tabuletas ao longo de todo o percurso a assinalar a passagem de cada quilómetro e estas pareciam estar cada vez mais em desacordo com os bips do meu relógio que assinalavam essas mesmas passagens. Segundo, porque embora depois dos 10 quilómetros o meu relógio apontasse para ritmos médios mais rápidos, era estranho ver atletas (vários!) que vinham de trás e se juntavam ao grupo onde eu estava. Era mesmo muito estranho. Parecia que estava a andar para trás, quando na realidade me sentia bastante bem e supostamente estava a andar mais rápido.

Depois de muito matutar nesta situação, e com as passagens dos quilómetros cada vez mais díspares entre o meu relógio e as placas na estrada – para além de me continuar a sentir extremamente bem – cheguei à conclusão que havia mesmo algo de errado entre o que os meus olhos viam e o que o meu corpo sentia. Então, por volta do quilómetro 16-17 (já não consigo precisar), decidi acelerar. Não de uma maneira louca, mas com a ideia que sentia demasiada energia a fluir dentro de mim naquela altura da jornada. Estava mesmo desconfiado, e a passagem na marca da meia maratona provou que eu tinha razão para isso. Os registos que o meu relógio vinha a assinalar na passagem de cada quilómetro eram mais rápidos do que os verdadeiros. De facto, eu passei à meia-maratona (21 095 metros) com 01 hora, 21 minutos, 12 segundos. Como a imagem seguinte deixa perceber, no meu relógio essa marca pouco antecede a chegada ao quilómetro 22. Ou seja, a meio da prova estaria já com uma diferença superior a 800 metros entre o meu desempenho real e o apontado pelo meu Garmin.

 

Maratona de Amesterdão 2016 - A história de um Garmin que se perdeu fora do país

 

Nesta altura do relato da minha aventura, talvez seja conveniente esclarecer algumas “dúvidas naturais”. Nomeadamente:

  • Porque me apercebi do problema na passagem à meia-maratona? Porque era a passagem onde tinha um contador com o tempo de prova. Só aí eu tive a possibilidade de saber a distância e o tempo real da prova;
  • Já com uma diferença tão grande a meio da prova, não seria fácil detectar este problema mais cedo e reagir antes? A verdade é que o relógio nunca antes se comportara desta maneira (à excepção da véspera da prova? quem sabe …), pelo que nunca tal me passou pela cabeça que isso fosse acontecer naquele dia.

Posto isto, a minha reacção, suportada pelas excelentes sensações que agora tinham uma explicação, intensificou-se. Como se fosse atrasado para um compromisso qualquer, aproveitei o embalo que trazia de há alguns quilómetros e imprimi um ritmo que me desse a sensação de ter energia para chegar ao fim da prova e, ao mesmo tempo, a impressão de estar no intervalo de ritmos programado antes da prova. De preferência, na parte mais rápida desse intervalo, já que continuava a acreditar em qualquer registo, inclusive abaixo das 2 horas e 40 minutos. Porém, se passara com mais de 1 hora e 21 minutos à meia-maratona, então tinha mesmo de me esforçar.

Visto que não havia cronómetro junto das tabuletas seguintes, e sem ritmos verdadeiros no relógio, a solução que encontrei para a segunda parte da prova foi fazer contas de cabeça. Portanto, quando passava a tabuleta de um quilómetro, via as horas que tinha no relógio ou o tempo total do exercício (nada de distâncias!), e depois voltava a ver quando passava na tabuleta seguinte e fazia a subtracção. Isto permitia-me saber mais ou menos o tempo que estava a demorar a percorrer a distância entre placas. Naturalmente que, devido ao desgaste acumulado, este exercício mental tornou-se cada vez mais difícil de fazer. Por vezes, já não tinha a certeza das horas a que tinha passado na primeira tabuleta, ou então baralhava-me com os minutos e os segundos ao fazer a subtracção e depois já tinha dúvidas sobre as horas com que acabara de passar o último quilómetro.

Registada a peripécia, caso para dizer que se fosse um teste de Matemática eu tinha passado. Em grande parte das ocasiões (e estamos a falar de 21 exercícios de subtracção), lá consegui fazer as contas e perceber que estava dentro dos ritmos desejados. Uma convicção que saía reforçada pelos vários atletas que ia ultrapassando nesta segunda metade. De facto, a Maratona de Amesterdão foi a que fiz verdadeiramente de trás para a frente. Aliás, creio que a única até à data! A prova que realmente me deixou perceber a grande quantidade de atletas que na segunda parte rebenta por completo. Um clube no qual me afirmei este ano.

Como a imagem (seguinte) com as passagens oficiais da prova deixa perceber, na parte final também acusei o desgaste. Um pouco antes das 2 horas e 30 minutos de prova, pelo que não foi uma gestão perfeita. No entanto, já estava muito perto da meta e o esforço, apesar de muito, acho que foi pequeno se o comparar com as minhas chegadas em Valência, Budapeste ou Sevilha.

 

Maratona de Amesterdão 2016 - Tempo do Chip Oficial

 

De volta à conversa dos grandes amigos, no caso deste relógio, não sei se ele preferiu ficar mal visto porque sabia que no final me ia ajudar, ou se foi mesmo um problema de saúde que teve com os ares de Amesterdão. Aliás, nunca saberei, pois o meu resultado, caso o relógio tivesse funcionado correctamente, será sempre uma miragem. Certo é que tudo acabou em bem. Poupar dois minutos para correr a segunda meia-maratona da prova parece-me um negative split excessivo no que toca à gestão óptima das energias, mas foi a minha realidade e é digno de orgulho. Tudo o resto são hipóteses que nunca passarão disso.

 

Feliz Dia do Maratonista 🙂

 

Maratona de Amesterdão 2016 - Medalha

 

P.S. Se o meu relógio tivesse correcto, eu teria percorrido quase 48 quilómetros, os últimos dos quais a ritmos fabulosos para as minhas capacidades actuais.

 

Maratona de Amesterdão 2016 - A história de um Garmin que se perdeu fora do país

 

Maratona de Amesterdão 2016 - A história de um Garmin que se perdeu fora do país

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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