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Filme Campeones 2018 - David Marqués & Javier Fesser

Campeones – Um Hino à Vida!

Não fosse “Campeones” um filme inserido na categoria de desporto e eu provavelmente nunca chegaria a ele. No entanto, como alguém que orquestra um encontro entre duas pessoas e rapidamente sai de cena para deixar as coisas acontecer, a temática desportiva coloca esta longa-metragem e o espectador agarrados um ao outro e, mal isso acontece, refugia-se num plano mais disfarçado.

Ou isso, ou então fui eu que fiquei cego por tudo o resto que se estava a passar no ecrã. Sim, talvez tenha sido antes esta segunda hipótese. Uma espécie de encantamento que resultou do impacto que a vertente dramática e cómica do filme provocou em mim. Porque hoje não escrevo neste espaço desportivo para falar de desporto. Escrevo, porque “Campeones” dá vontade de falar da vida.

Mas, tendo em conta que as palavras seguintes precisam de ser situadas no contexto do filme, primeiro uma pequena pausa para a visualização do trailer.

 

Campeones – Trailer

 

 

Desarmar o espectador com mestria

O filme está longe de ser perfeito! À semelhança dos seus protagonistas. De todos nós! Sem rodeios, a meu ver, este é o ponto fundamental desta criação. Enquanto os jogadores do clube de basquetebol “Los Amigos” têm provavelmente um comprovativo de saúde a dizer que são portadores de algum tipo de deficiência intelectual, as restantes personagens não têm essa declaração, mas têm comportamentos longe de serem exemplo ou inspiração para quem quer que seja. Esta é uma das grandes ironias de “Campeones”!

Uma ironia que tantas vezes nos passa ao lado ou teimamos em “varrer para debaixo do tapete”. Esta produção, de uma forma altamente sagaz, reduz a cinzas o ego do espectador, no que toca aquela ideia tão comum e, por vezes incontrolável, de que somos superiores aos outros. Neste contexto, superiores em relação aos portadores de deficiente intelectual. Atitudes que visam colocar uma aura de perfeição à nossa volta, quando tantas vezes escondem outro tipo de problemas que habitam as nossas vidas. Situações e dilemas tão ou mais graves que os destes jogadores de basquetebol, tão ou mais prejudiciais a nós próprios e à sociedade a que pertencemos. Este projecto, cujo guião foi escrito por David Marqués e Javier Fesser, deixa o espectador completamente despido de argumentos, à medida que o faz cair na realidade. E faz isso não com um golpe violento, mas com uma técnica apenas ao alcance de verdadeiros estrategas.

 

Quem ensina quem?

Ora, no meio de vários aspectos que contribuem para a mensagem do filme chegar a este lado do ecrã, há um que quero muito destacar, pois acho que faz toda a diferença. Pelo menos em mim fez! Refiro-me à igualdade entre todos. Os campeones da equipa de basquetebol “Los Amigos” não são encarados com uma perspectiva de condescendência ou de piedade. O lado oposto e alternativo à via da superioridade supra mencionada. Não! Felizmente, é feita uma viagem ao dia a dia destes atletas, para lá do desporto. O espectador toma conhecimento que eles também lutam diariamente; que, com base nas suas capacidades, procuram inserir-se na sociedade e adaptar-se a ela. Naturalmente, por iniciativa e mérito deles, ou de quem os criou e lhes incutiu esta postura tão digna para com a vida.

Posto isto, pergunto-me: então mas não está aqui a grande diferença de uma vida em relação a outra? Mais do que na deficiência intelectual, na postura? A sociedade, com ou sem vontade, programou uma barreira que faz a separação entre as pessoas com e sem problemas intelectuais. Todavia, neste segundo grupo, não existe uma outra barreira invisível, tão ou mais significativa, entre aqueles que lutam todos os dias para alcançarem os seus objectivos, e os que nunca se cruzaram na rua e em casa com as palavras “esforço” e “sacrifício”? Porquê o condicionamento de uns e não de outros?

Por falar em “condicionamento”, esta palavra traz à baila mais uma grande ironia. Se, supostamente, são as pessoas portadoras de uma deficiência intelectual que estão condicionadas, não deixa de ser estranho que sejamos nós, os rotulados de “normais”, que nos sentimos tantas vezes condicionados quando interagimos com elas. E se muitas vezes pensamos que é a elas que vamos ensinar alguma coisa sobre esta vida, talvez seja mais o contrário, como demonstra este filme.

 

Uma abordagem mais técnica

Com esta reflexão, deixei a perfeição para trás. Como cheguei a dizer, o filme está longe de ser perfeito enquanto narrativa. Isto é, algumas cenas são um pouco forçadas, com vista a que o desenrolar da história não emperre. Porém, a mensagem do filme é tão forte que estes momentos não conseguem beliscar o que realmente é importante.

Há filmes que roçam a perfeição em todos os planos e nós reconhecemos realmente todo o talento artístico nessas produções. Um pouco à semelhança de pessoas que fazem parte do nosso grupo social, estamos de bem toda a vida, admiramos mais do que ninguém, e reconhecemos a sua importância. Porém, isso não é o sinónimo daquela ligação especial, diferente de todas as outras, apesar de nela reconhecermos defeitos. “Campeones” entra esta segunda linha, pois deixa marcas profundas.

 

Conclusão

Por tudo isto, tive vontade de escrever sobre o filme. Da forma excepcional como esta produção consegue pregar-nos uma grande bofetada e ainda assim levar-nos a dizer “eu mereci isto”. “Campeones” deita muros abaixo! Coloca em causa o real valor de uma certidão, por mais condicionante que ela possa parecer na linha de partida. A força de vontade, a postura e a dignidade valem muito!

E das certidões faço a ponte para os canudos. O exemplo dos académicos que sucumbem no dia a dia perante outros de inferiores habilitações literárias. Também por aqui se percebe a estupidez de imaginarmos posições de força ou de fraqueza perante quem quer que seja. Assim como o cego que não vê, mas tem as suas outras faculdades mais apuradas, também nós podemos estar condicionados em algumas vertentes, embora às vezes não pareça, ou ainda não as tenhamos descoberto. Simplesmente, os deficientes intelectuais já descobriram as deles, pelo que também agora se podem preocupar única e exclusivamente em descobrir e desenvolver os seus pontos fortes. Já os restantes, os caracterizados como “normais”, têm de continuar vigilantes.

No meio de tudo isto, “Campeones” faz rir. Imenso! Não de desgraça, não de gozo, mas de uma maneira estranhamente livre e pura, que é difícil libertar noutras comédias.

 

Nota: O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

 

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