Para lá dos 20 km por hora: quebrar barreiras (psicológicas)

3000 metros obstáculos - atletismo

No passado dia 6 de fevereiro, superei um desafio que, na minha cabeça, era bastante aliciante, tendo em conta as minhas capacidades: correr 3000 metros em menos de 9 minutos, numa estrada que é sempre a descer ou em falso plano favorável. Em termos (pessoais) de comparação, talvez isto fosse para mim como para o Eliud Kipchoge correr a distância da maratona em menos de 2 horas, com todas aquelas benesses, eventos que, como este blog é prova, eu muito critiquei.

A verdade é que, com a chegada dos tempos pandémicos, entenda-se: a falta de competição e os treinos a solo sempre nos mesmos sítios, forçaram a procura de desafios diferentes para me testar e manter motivado, ainda para mais com a chegada do inverno que, este ano, está mesmo a ser inverno (qual seca de anos anteriores?!). De alguma forma, acabei por enveredar pelas distâncias mais curtas que, suspeito (falta a competição para comprovar), começam a apresentar resultados, muito para lá deste dia feliz em que incide o artigo. Uma memória que me vai ficar para a vida, tendo em conta a importância e significado que eu atribui ao obstáculo.

 

3000m em 8:59.59 – Tentativa 1

 

Correr para lá dos 20 km por hora: quebrar barreiras (psicológicas)

 

3000m em 8:59.59 – Tentativa 2

 

Correr para lá dos 20 km por hora: quebrar barreiras (psicológicas)

 

Contudo, este desafio favorável, tem repercussões muito para lá da felicidade do momento. Consequências que serão até mais importantes para o meu momento actual. Refiro-me à quebra de uma barreira psicológica. Afinal, pergunto: antes de autopropor este desafio, eu era capaz de correr 3000 metros, nestas condições favoráveis, em menos de 9 minutos? Não sei! Nunca tinha tentado! Só corri 3000 metros uma vez na vida, na pista, onde o registo ficou longe disso e, para além de não ser a descer, as condições também não era as melhores.

Toda esta situação faz-me lembrar aqueles aloquetes que alguns corredores usam no Instagram, um para cada distância, os quais aparecem abertos ou fechados consoante o atleta já tenha superado a distância em questão. Pois bem, com este tipo de testes, que eu agora, sem provas, tenho feito com as distâncias mais curtas, passa-se algo de muito semelhante. Simplesmente, os aloquetes apontam para ritmos, não para distâncias, e desbloqueiam-se na minha cabeça.

Foi precisamente isso que eu senti quando terminei aqueles 3000 metros em 08:52.18 (segundo o relógio GPS). Um clique num aloquete que tinha um ponto de interrogação na minha cabeça. Como é experienciado por todos, a mente está sempre a pregar partidas e a colocar dúvidas que temos de rebater, seja com uma resposta mental ou física. Porém, quando se constrói uma resposta destas, é quase como “encostá-la à parede”. Porque, a partir da ali, a mente será incapaz de semear essa dúvida, salvo circunstâncias especiais. Tão ou mais importante quanto esta resposta positiva e feliz, é precisamente a existência de uma resposta, que faz desaparecer o “ponto de interrogação” do aloquete. Mesmo que ele se mantenha fechado, passa a existir um registo a partir do qual se pode elaborar um plano para o desbloquear.

Todo este cenário parece-me exclusivo de atletas que:

  • como eu, nunca practicaram o atletismo de base (velocidade, meio-fundo) e, como tal, não sabem do que são capazes nessas distâncias, colocando muitas dúvidas sobre as suas capacidades em correr mais rápido (o receio aparece só de imaginar correr naqueles ritmos);
  • há muito não “actualizam” as suas marcas nestas distâncias, seja em treino ou em prova. A meu ver, colocar esta metodologia em práctica, representa descobrir e reforçar a crença nas nossas melhores capacidades, através da sobreposição de camadas protectoras contra as dúvidas.

Passo a explicar o ponto de vista: quando se correm 10 quilómetros a uma média de 3:15/km e se tem dúvidas sobre os 20/km horários aos 3000 metros, faz-se este último teste com vista ao esclarecimento. Consoante os resultados, dá-se o salto para distâncias mais curtas, maiores, ou percursos mais difíceis. Quanto maior a proximidade com os 10K, maior a crença que o registo dos 3:15/km pode baixar. E isto não tem necessariamente que interferir com o plano de treino, visto que estes desafios podem substituir provas em que às vezes até se participa sem objectivos.

Em alternativa à abordagem anterior, existe a seguinte, que me parece bem mais complicada. No mesmo cenário de correr uma prova de 10K a 3:15/km, a experiência diz-me que não se pode esperar, “do nada”, correr outra prova de 10K a 3:10/km, pouco tempo depois da anterior. De facto, verificar esse ritmo no relógio (3:10/km) costuma traduzir-se num pânico mental. Especialmente se for numa fase prematura da corrida. Inconscientemente, a mente e/ou o corpo preparam-se para acusar cansaço na parte final. No entanto, ainda neste cenário, existem estratégias (algumas de risco elevado) para se evitar este conflito interno. Nomeadamente:

  1. não olhar para o relógio durante a corrida e correr com base nas sensações, o que implica muitos treinos com a mesma estratégia;
  2. gerir a prova por alguém que tenha um ritmo idêntico e que siga à frente, uma vez que a mente costuma acreditar facilmente nisso, isto é: “se aquele vai muito rápido e anda tanto como eu, então eu também sou capaz”;
  3. uma disputa vertiginosa na segunda metade da prova em que esteja em jogo a vitória, um lugar muito honroso, ou outro tipo de objectivo muito especial.

 

Por último, este assunto também remete para a polémica das sapatilhas com placas de carbono. Quando este tema “rebentou”, surgiram várias opiniões diferentes. Entre elas, lembro-me de alguém falar no desbloqueio psicológico que as sapatilhas conferiam aos corredores. Ou seja, independentemente da tecnologia embutida nas sapatilhas ser ou não benéfica (e tudo indica que sim!), elas funcionariam também como uma espécie de efeito “placebo”. Quando se corre a 3:15/km e as sapatilhas nos levam a correr a 3:10/km – por efeito da tecnologia de ponta, ou por se acreditar na ideia de um melhor desempenho – o certo é que a barreira psicológica em questão é ultrapassada. Por outras palavras, a partir daquele momento, será difícil o atleta duvidar da sua capacidade para correr a 3:10/km. E, com o passar do tempo, questões como o equipamento utilizado, o percurso, e as condições meteorológicas em que isso aconteceu pela primeira vez, serão apenas pormenores agarrados a um “feito histórico”. Na próxima vez que o atleta arrancar para uma prova de 10K e o relógio marcar  3:10/km, o comentário interno será “está dentro do que sou capaz”, em vez de “continuo assim e tiro bilhete ali à frente“, e isto é uma mensagem de tranquilidade que, efectivamente, passa para a “máquina” que ali vai a trabalhar no duro.

Bons saltos psicológicos, dentro das regras, da ética, e em segurança 🙂

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

 

Foto: davidkn1 no Foter.com / CC BY-ND

 

nv-author-image

Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.