Correr 10 quilómetros em negative split? Chumbei no teste!

correr 10 quilómetros em negative split

Que diabo! Confesso que ainda estou um pouco atarantado com a minha descoberta de ontem. Um achado que resultou das minhas análises mais recentes aos meus desempenhos (e consequentes resultados!), em dias de prova que ambicionava um recorde pessoal (RP). Coloquei a maratona de lado, e debrucei-me sobre as distâncias da meia-maratona e dos 10K. De um modo geral, procurava olhar para os registos das provas seleccionadas e descobrir um padrão comportamental na estratégia utilizada (inconscientemente!), quer nos dias de sucesso, quer naqueles em que falhei o tão ambicionado RP.

Por outras palavras, pretendia traçar o meu perfil de corredor desses dias tão importantes e de maior pressão. Seria eu o homem do negative split? O relógio suíço que corre ao mesmo ritmo do princípio ao fim? Aquele que corre rápido na primeira metade e depois sofre e aguenta-se como pode? Ou estaria até a utilizar as estratégias que desenham um U, seja ele normal ou invertido, num gráfico de velocidade/tempo?

Infelizmente, uma possível conclusão sobre esta matéria acabou por ficar adiada para outra altura. Isto porque, a meio da análise, descobri algo totalmente inesperado e que de facto nunca me teria apercebido sem o rigor dos números. Refiro-me à minha dificuldade de correr 10 quilómetros em modo negative split.

 

O que significa correr 10K em negative split?

A teoria eu tenho-a na ponta da língua. Correr uma prova em negative split, no caso dos 10K, significa correr mais lento os 5 quilómetros inicias em relação aos restantes cinco. Excelente resposta! Mas então, qual o meu problema? É que, enquanto atleta, o meu teste de avaliação é práctico e não teórico. Nesta componente, tenho um chumbo claro.

Passo a explicar. Toda a investigação inicial, que conduzirá a outro artigo mais à frente, levou-me a reunir as provas em que participei desde o início de 2017 até ao presente, com os seguintes requisitos:

  • ter uma distância exacta de 10K, ou aproximada (seja por defeito ou excesso);
  • ter um trajecto que reúna condições para se estabelecer um novo recorde pessoal. No caso de défice da distância, permitir um ritmo médio de prova nunca antes alcançado;

Com base nestes critérios, reuni 20 eventos, sendo que corri em jeito de negative split em apenas 6 deles (30%). Um número que até pode ser reduzido a 4 (25%), se tiver em conta que duas delas, embora propícias a recordes, têm uma primeira parte mais dura que a segunda.

 

Presença do negative split em provas para recorde pessoal

Antes de listar os resultados, duas notas importantes em relação à tabela seguinte (tabela 1):

  1. Os cálculos que efectuei para obter os ritmos médios da primeira e segunda parte de cada uma das provas foram com base nos registos do meu relógio Garmin Forerunner 250. Esta foi a fonte que utilizei para este trabalho e não os tempos oficiais de provas. Existe sempre uma ligeira diferença entre ambos, e no caso dos registos das provas, nem sempre existe um registo da passagem aos 5K.
  2. No caso das provas que não atingem a distância dos 10K (assinaladas com *), os ritmos médios das duas partes foram calculados da seguinte forma: a média da primeira parte da prova corresponde aos 5K iniciais; a média da segunda parte corresponde ao ritmo médio da restante distância.
    Exemplo: Num evento com 9.800 metros, o ritmo médio da segunda metade é calculado com base em 4.800 metros e não em 5.000, para evitar que o valor seja deturpado. Parece-me importante fazer esta distinção, pois algumas organizações de provas apresentam o ritmo médio dos atletas com base no tempo final do atleta e na distância exacta de 10.000 metros. Porém, no caso da prova não ter este comprimento, os ritmos finais apresentados são mais rápidos que os verdadeiros e induzem os atletas em erro.

 

DataProva1ª Parte
(Partida - 5K)
[Ritmo Médio /km]
2ª Parte
(5K - Meta)
[Ritmo Médio /km]
26-03-2017Corrida Cidade de Aveiro 20173:28,123:30,12
02-04-2017Corrida do Mar 20173:28,243:27,00
23-04-20173ª Corrida Popular de Esmoriz3:26,123:38,36
15-06-20171ª Corrida Solidária de Ovar
(Parque do Buçaquinho) *
3:29,003:28,48
02-07-2017XXIX Corrida de S. Pedro
(Póvoa de Varzim) *
3:25,243:33,36
22-10-2017Corrida EDP Espinho 20173:29,003:27,36
21-01-201835º GP Atletismo ACD "Os Ílhavos"3:23,243:24,00
15-04-2018Corrida EDP Espinho 20183:27,003:25,48
28-04-2018Corrida Centenário CD Feirense *3:30,243:30,48
01-07-2018XXX Corrida de S. Pedro
(Póvoa de Varzim) *
3:21,483:24,36
18-11-20183º GP Atletismo da Murtosa3:20,483:26,36
09-12-2018XVII GP Atletismo Vila da Palhaça
(Oliveira do Bairro) *
3:18,243:18,00
22-12-2018V Corrida S. Silvestre de Ovar *3:17,123:26,00
05-05-20195ª Corrida Popular de Esmoriz3:20,243:24,12
30-06-2019XXXI Corrida de S. Pedro
(Póvoa de Varzim)
3:23,483:23,24
13-07-20196ª Corrida Popular da Costa Nova
(Ílhavo)
3:24,483:27,24
27-07-2019Corrida Milionária (Espinho)3:21,483:30,48
01-12-20194º GP Atletismo da Murtosa3:19,483:22,00
21-12-2019VI Corrida S. Silvestre de Ovar3:22,003:24,24
02-02-202037º GP Atletismo ACD "Os Ílhavos"3:17,243:20,36
Tabela 1: Presença do negative split em provas para recorde pessoal

 

Como os dados das colunas 3 e 4 permitem perceber, as provas assinaladas com fundo amarelo e laranja são as que apresentam negative splits. A utilização de duas cores serve para destacar um dado importante. As provas assinaladas a laranja, embora propícias a bons registos, têm uma primeira metade um pouco mais dura que a segunda, pelo que a probabilidade de existir um negative split é maior logo à partida.

 

Provas que resultaram num recorde pessoal (RP)

Uma vez feita a distinção entre provas com e sem negative split, importa perceber se esta estratégia de correr mais rápido a segunda metade da prova é algo que, na minha pessoa, valha a pena experimentar com mais afinco no futuro. Não que eu tenha alinhavado qualquer estratégia específica anteriormente. Não sou muito dado a isso, pois as circunstâncias de corrida muitas vezes obrigam a mudanças à última da hora, pelo que normalmente alimento a esperança de um RP durante a semana, mas não a maneira como o posso conseguir. Mas vamos às percentagens.

Portanto, das 6 provas que corri em negative split, em 2 delas alcancei um recorde pessoal. A Corrida do Mar de 2017 tinha os 10K. No caso do XVII GP Atletismo Vila da Palhaça, foram cerca de 9600 metros que ainda hoje, sou sincero, me interrogo como naquele dia consegui correr àquela média (3:18/KM – 3:19/KM), já que nunca me tinha aproximado dela. Conseguir RPs em 2 de 6 provas resulta numa taxa a rondar os 33% de sucesso.

Por outro lado, das 14 provas onde o negative split não se verificou, cinco delas apresentaram recorde pessoal em distância ou ritmo médio, ou equivaleram os meus melhores registos. É preciso ter este último ponto em consideração, pois no caso de ter o mesmo ritmo médio em duas provas com distâncias diferentes, fica difícil distinguir qual a melhor. Neste grupo entram então:

  • Corrida Cidade de Aveiro 2017
  • 35º GP Atletismo ACD “Os Ílhavos”
  • XXX Corrida de S. Pedro (Póvoa de Varzim)
  • 4º GP Atletismo da Murtosa
  • 37º GP Atletismo ACD “Os Ílhavos”.

Feitas as contas, no que toca a RPs, aqui a taxa entra na casa dos 35%.

 

Primeiras conclusões sobre o negative split

Ainda que as amostras não sejam muito significativas, as percentagens obtidas não favorecem nenhuma das estratégias. Nem o negative split, nem a do positive split, pelo que poderá ser de valor trabalhar este aspecto no futuro e obter mais conclusões.

Enquanto isso não acontece, a tabela em cima mostra um outro dado interessante sobre o meu perfil. Ainda que tenha ficado surpreendido com esta falta de negative splits, não foi surpreendente constatar que tenho um número considerável de provas cujo tempo da primeira metade não é muito inferior ao da segunda. Registos muito próximos que sugerem uma boa gestão das energias. Porém, para esta análise, vou pegar numa outra selecção de provas.

 

Perder velocidade sem dar por isso

Depois de considerar as perdas mínimas em percursos propícios a recordes pessoais aos 10K, o passo seguinte foi juntar provas de maior dificuldade (em termos de percurso) à equação e avaliar essas minhas prestações.

Contudo, para fazer isso com a menor margem de erro possível, não podia dividir as provas em distâncias de 5K, mas em voltas iguais. Uma vez traçada a fórmula, voltei a “viajar” desde 2017 até ao presente e construí uma outra tabela. Nesta tabela 2, três notas devem ser tidas em conta.

A primeira é que algumas destas provas já ficam mais distantes dos 10K, nomeadamente as de Mozelos.

A segunda nota diz respeito aos registos de passagem de cada volta. Nas provas em que os tapetes dos chips estavam instalados junto à meta, foram considerados os registos da organização e seus respectivos tempos de chip. Ou seja, foram descontados os segundos perdidos, logo após o tiro de partida, entre a minha posição no pelotão e a passagem no pórtico de partida.  Nas corridas em que isso não se verificou, foram tidos em conta os tempos de passagem estimados pelo meu Garmin Forerunner 230.

A terceira é exclusiva da 5ª Corrida Fernanda Ribeiro, onde as voltas não são exactamente iguais. Nela existe uma pequena diferença no retorno traçado junto da partida/meta que marca a transição da primeira para a segunda volta da prova.

 

DataProvaVolta 1
(Tempo)
Volta 2
(Tempo)
Volta 3
(Tempo)
21-05-201718º GP Atletismo Vila de Mozelos14:2114:47
21-01-201835º GP Atletismo ACD "Os Ílhavos"11:1511:3511:27
28-04-2018Corrida Centenário CD Feirense17:1217:28
13-05-20185ª Corrida Fernanda Ribeiro (Maia)17:1417:32
20-05-201819º GP Atletismo Vila de Mozelos13:5514:28
03-06-20184ª Corrida de S. Tiago (Rio Meão)10:3810:5010:50
09-12-2018XVII GP Atletismo Vila da Palhaça
(Oliveira do Bairro) *
10:3110:4510:39
05-01-20195ª Corrida S. Silvestre de Espinho16:4817:10
10-06-20191º GP Atletismo de Guilhovai (Ovar)16:4218:33
06-07-20195º GP Atletismo de Lamas
(Santa Maria da Feira)
09:3309:4509:57
04-01-20206ª Corrida S. Silvestre de Espinho16:2616:55
02-02-202037º GP Atletismo ACD "Os Ílhavos"10:5911:1511:27
09-02-2020XXI Prova Atletismo de Cesar
(Oliveira de Azeméis)
09:2409:4709:45
Tabela 2: Provas com voltas iguais (tempos por volta)

 

Chegada à meta sem energias?!

Os dados apresentados são claros. Em TODAS as provas, houve sempre perda entre a primeira volta e as restantes. Ainda que em alguns casos de 3 voltas possam ter surgido melhorias na derradeira em comparação com a anterior (volta 2). Mas há outro dado interessante. Na maioria dos casos, as perdas não são muito significativas, andando normalmente entre os 15 e os 30 segundos. O único caso crítico é o 1º GP de Atletismo de Guilhovai, no qual levei um “estouro” valente, como já aqui relatei.

Em cima, a teoria do negative split resultar comigo ficou em aberto, visto que os dados são inconclusivos. Agora, esta segunda tabela comprova que não existe um entusiasmo exagerado, mas sim controlado, da minha parte nas provas. Ao mesmo tempo, estes desempenhos sugerem que não ficam energias por gastar na prova, mesmo que a gestão das mesmas possa ser aperfeiçoada. Afinal de contas, o “trunfo na manga” anunciado do negative split é precisamente esse. Começar a abanar psicologicamente, ou a perder o gás fisicamente, a um quilómetro da meta, não é o mesmo que enfrentar estas mesmas dificuldades quando se está a meio da corrida.

 

Como correm os atletas portugueses em geral?

A terminar esta análise, uma pequena reflexão sobre o panorama geral, em prol do individual. O que acontece com a maioria dos atletas portugueses? Será que correm em negative split, em provas de 10K, ou nem por isso? Depois de olhar para as minhas prestações, se tivesse de escolher uma resposta, diria que a maioria “falha” o negative split.

Esta é a percepção que tenho, uma vez que não costumo perder lugares na segunda metade das provas. Posso também não ganhar muitos, mas normalmente a diferença final joga a meu favor. Digamos que faço uma pseudo “corrida de trás para a frente”.

Conclusão? Se mesmo assim eu verifico um ligeiro positive split, então, pela minha amostra, sou levado a deduzir que um número considerável de atletas portugueses tem uma perda mais significativa na segunda metade. Um caso de estudo que tem a minha curiosidade e poderá receber mais atenção no futuro, aqui no Vida de Maratonista.

Boas corridas, com as melhores estratégias de acordo com o perfil de cada um 🙂

 

Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.

Imagem de Capa: yellowcat do Pixabay

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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