10 000 Metros na Pista: Brincar com os números

correr 10 000 metros na pista - Torneio Primavera Vagos 2021

Para quem não está recordado, o primeiro filme que gravei em 25 takes de 400 metros não correu da melhor maneira, mas foi uma grande experiência. Nessa altura, tinha ficado a promessa de um dia criar uma sequela, o que aconteceu por estes dias, em Vagos.

Apraz-me desde já dizer que esta nova longa-metragem foi gravada em maior velocidade, muito por mérito, segundo entendo, da estratégia utilizada na prova. Um sucesso que está na origem deste texto, quiçá de utilidade para os leitores que já correm ou ainda se venham a aventurar nesta prova no tartan.

O termo “brincar”, segundo o dicionário, remete para outros verbos, tais como: “divertir”, ou “entreter”. E ambos, como será possível perceber ao longo do artigo, ajustam-se à minha estratégia de corrida. Contudo, derivar o “brincar” para outros termos, tais como: “controlar” ou “dominar”, fará igualmente sentido.

Na pista, mais do que na estrada, ter um único número como referência nos 10 000 metros (neste caso, por volta), talvez seja um grande erro. Como noutras ocasiões, com uma só referência, aliada a um objectivo ambicioso, o risco de sermos dominados por esse número, e não o contrário, é muito elevado. Porém, se noutras provas, nomeadamente as de estrada, talvez seja possível minimizar as perdas e o sofrimento, nesta multiplicação de 25 x 400 o resultado será uma intensificação dessas más sensações.

No passado sábado, antes da partida para os 10 000 metros, eu levava várias referências na minha cabeça. 79, 80, 81 segundos por volta. Eram estes os meus números da sorte. Todavia, juntamente com eles, e para poder brincar com a matemática, levava também 3 notas de rodapé, resultantes da minha primeira experiência:

  1. Quando se “rebenta” com a máquina numa fase prematura dos 10K na pista, isso paga-se mais caro que na estrada.
  2. É importante ter alguém ou um grupo onde seguir, pelo menos na primeira metade da prova. Idealmente, durante 16 ou 17 voltas.
  3. Obrigatoriamente, tinha que me sentir confortável nos primeiros 5K.

Como dá para perceber, eu não tinha autonomia suficiente para colocar esta estratégia em marcha. Precisava que as variáveis externas estivessem de acordo com estas minhas ideias, o que felizmente aconteceu.

Nas primeiras 2/3 voltas, o “meu” comboio rodou na casa dos 80 segundos, e o meu corpo respondeu com conforto e entrou no esquema (o que era o mais importante!). Daí, tirei também a ilação que os 80 seriam o andamento uniforme ideal para eu fazer toda a prova. Assim, com capacidade física e interesse em manter aquele comboio nesse ritmo, fui também colaborando na frente. Em algumas voltas, atrasamo-nos um pouco, passando com 81, 82, ou até 83. Por outro lado, eu continuava a sentir-me confortável e capaz de recuperar estes ligeiros atrasos numa parte mais adiantada da corrida. Em suma, as coisas continuavam minimamente dentro dos conformes. Estava tranquilo, e sentia que continuava a ser eu que brincava com a matemática. Estava-lhe a dar a mão, mas não o braço!

Esta sensação de controlo sobre os acontecimentos verificava-se, em particular, quando eu passava na frente do grupo na recta da meta. Nessa zona da pista, o vento sentia-se nas costas. Ora, depois de fazer três quartos da volta com base nas sensações, aquele segmento permitia-me a fazer o ajuste necessário para passar junto do cronómetro com o tempo desejado. Uma brincadeira que só é possível quando existe energia e conforto. Se houver desgaste, a mente quer é reclamar, recusando-se a pensar em algo de bom ou a fazer cálculos matemáticos. Quando vamos bem, como foi o caso, damo-nos ao luxo de olhar para o cronómetro e somar 80 segundos para perceber o tempo com que temos que passar ali na volta seguinte. E assim se passou grande parte da prova, comigo a cumprir com aquelas 3 notas de rodapé, ao mesmo tempo que tirava a bola dos 80, 81 ou 82 segundos em cada volta.

Com todo este entretenimento, nunca me preocupei com o mostrador do número de voltas. Só quando faltavam 8 voltas (salvo erro) para o final, é que senti estar no tempo certo para começar a descartar o conforto. O número de voltas em falta já estava reduzido a um dígito, portanto, se houvesse alguma quebra mais à frente, seria apenas a 2 ou 3 voltas do final, o que não seria um problema grave.

Por esta altura, faltou ter alguém mais à frente, mas perto, para ir buscar. O trio que liderava a corrida, e que entretanto se partiu, tinha uma vantagem de meia volta. Mas eu corria agora para 79, 78 segundos por volta, e, portanto, continuava a sentir-me no controlo da prova e a divertir-me com isso. Quando o esforço da corrida me atacou realmente e as luzes vermelhas da máquina começaram a acender, já era tarde para a matemática me derrubar mentalmente e fazer a máquina abrandar. A prova estava mesmo no fim e eu tinha conseguido uma ligeira aproximação à frente. Um foco que me animava e abstraía do esforço. Naquela altura, já não havia número que me metesse medo. Nunca suspirei ou desesperei por ouvir o sino a tocar.

Logo após cortar a linha de meta, tive que me estender, o que significa que não ficou energia por gastar. Feitas as contas, tinha corrido uma segunda metade de prova mais rápida que a primeira e, acima de tudo, tinha-me divertido com a matemática, ao mesmo tempo que dava 25 voltas à pista, colocando de lado a saturação do percurso e protelando o sofrimento até à altura em que me parecia adequado investir nele (perto dos 3K finais).

Concluindo, por força da versatilidade dos números, dos amigos-adversários com que competi, e por a recta da meta se ter revelado uma verdadeira ferramenta de afinação de ritmo, esta minha sequela nos 10 000 metros na pista tornou-se uma experiência muito mais agradável que a primeira. No entanto, tenho em mente que se uma destas variáveis se alterasse, como, por exemplo, não ter ninguém a correr entre os 79 e os 81 segundos por volta, toda esta história seria diferente. Mas esta foi a realidade do último sábado, da qual extraí a seguinte ideia: os 10 000 metros na pista pode muito bem ser a prova onde é mais importante sentir que estamos a brincar e a divertirmo-nos com os números, e não o contrário.

Boas corridas!

 

Nota: O autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.

Créditos Foto: Alexandre Castro de Azevedo

 

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Renato Sousa

Ligado ao desporto desde pequeno, deixei definitivamente o futebol em 2016 para me dedicar afincadamente ao atletismo. Desde aí que muita coisa mudou na minha vida, a qual não imagino sem o desporto. O Vida de Maratonista nasce então da minha paixão pelo atletismo, com contribuição especial da minha Licenciatura em Engenharia Informática, que me permitiu criar a solo este espaço de aventura e opinião, e torná-lo agradável a quem o visita.

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