Se é sabido que não se deve julgar um livro pela sua capa, o mesmo…

A Geração Ansiosa – Jonathan Haidt
Este é um livro com potencial para causar um grande impacto na sociedade actual. E se não for transformador, terá o mérito de pelo menos suscitar o debate sobre a poderosa influência das redes sociais nas crianças nascidas após o ano de 1995, que o autor designa como “geração ansiosa”.
No capítulo introdutório, Jonathan Haidt aponta como principais razões para o aparecimento desta geração, e passo a citar: «a superprotecção no mundo real» e a «subprotecção do mundo virtual». Temáticas que depois explora com grande minúcia ao longo do livro, rematando, nas páginas finais, com a apresentação de algumas propostas, que requerem esforços individuais, mas sobretudo colectivos, para combater os problemas identificados.
Ora, nesta minha curta exposição do livro (com algumas divagações pessoais pelo meio), opto por incidir mais, mas não exclusivamente, no tópico que considero mais importante: o impacto das redes sociais no desenvolvimento e comportamento do Ser Humano. Sendo verdade que o livro aponta em específico aos mais novos – e percebe-se porquê, pois são os mais vulneráveis e que mais rapidamente moldam os seus comportamentos e atitudes por via de habitarem e se tornarem viciados nestas plataformas –, o que este apresenta não deixa de ser um espelho do comportamento dos adultos e de como estas plataformas também os influenciam.
De facto, se estivermos atentos, alguns comportamentos dos mais novos são também comportamentos dos adultos, no que toca ao uso dos telemóveis e das redes sociais. As reacções e os comportamentos talvez possam ser mais exacerbados nos mais novos, mas percebe-se essa dependência cada vez maior dos ecrãs e do mundo virtual também nos adultos. Na verdade, se há uns anos atrás pareceria impensável identificar estas dependências nos mais idosos, com o passar do tempo, estes aprenderam a usar melhor os seus equipamentos, e as plataformas também se tornaram mais user-friendly para com eles, pelo que também é notória essa necessidade, particularmente em espaços públicos, onde as pessoas já não se olham entre si, nem são capazes de estar simplesmente sossegadas a observar o que as rodeia, pois o ecrã há muito que as engoliu.
Portanto, se este livro pode ser mais recomendado a pais com filhos? Sim. Contudo, por via desta leitura, qualquer pessoa pode ficar a par de muita informação relevante sobre o tema (incluindo tomar conhecimento de casos reais de como as redes sociais afectaram negativamente a vida de alguns adolescentes, originando até pensamentos suicidas) e, a partir de toda essa informação e exposição, analisar também os seus próprios comportamentos e dependências para com as redes sociais e a tecnologia.
Continuando, a meu ver, um dos aspectos mais interessantes do livro é a apresentação de dados e consequente análise do autor sobre como raparigas e rapazes são afectados de forma diferente pelas redes sociais e por outras áreas do mundo digital. O livro contém uma apresentação sustentada sobre como as redes sociais afectam mais as raparigas, sendo um dos argumentos o facto do sexo feminino ser mais sensível (seja pela biologia, seja por condicionantes culturais, ou ambas) às comparações visuais entre pares. Ora, não é difícil perceber o quanto isto pode ser prejudicial à sua saúde mental. Escrito pelo autor:
Em comparação com os rapazes, quando as raparigas entram numa rede social, são sujeitas a juízos mais severos e constantes sobre o seu aspecto e o seu corpo, confrontando-se com padrões de beleza mais inalcançáveis.
Basta pensar na quantidade de filtros e outras ferramentas que algumas redes sociais têm e que permitem manipular as nossas feições para as tentar aproximar do ideal de beleza e perfeição. Uma vez publicadas essas fotos, quem está do outro lado, e vê os resultados finais dessas feições, é com essas imagens que se está a comparar. Porém, por mais esforços que empregue, a sensação que fica é que nunca consegue chegar a esse “ideal de perfeição” que consumiu, o que, cumulativamente, pode resultar em auto-censura, depressão, e até tentativas de suicídio.
Como já referido, o livro inclui alguns casos reais para se perceber melhor a extensão e a gravidade destes comportamentos. Pelo meio, há uma frase muito interessante, que diz o seguinte:
Para os adolescentes deprimidos e ostracizados, a morte física representa o fim da dor, enquanto a morte social é o inferno da vida.
A questão do (cyber)bullying, e de como a agressividade é exercida de maneira diferente por rapazes e raparigas, é outro tópico amplamente abordado por Haidt, com a agressividade física a ser mais associada aos rapazes, e a relacional às raparigas. Curiosamente, no que toca aos índices de transtorno mental, que podem estar na origem de alguns destes comportamentos, segundo o autor, com esta “Grande Reconfiguração da Infância”, os rapazes parecem estar a aproximar-se das raparigas, ao revelarem um maior índice de transtornos de internalização, quando, até há alguns anos atrás, predominavam os transtornos de externalização.
E por falar em rapazes, em termos de condicionantes digitais, o livro vira-se para matérias como os videojogos e a pornografia. (Não esquecendo nunca que, apesar de um género poder ser mais afectado que o outro numa determinada área, isso não quer dizer que o outro também não é negativamente afectado por ela). Nota para uma transformação importante que tem vindo a ocorrer no universo dos videojogos, em concreto, no que aos jogos online diz respeito. Se antes estes jogos eram partilhados por vizinhos e amigos que se conheciam fisicamente, nos dias de hoje, há uma maior probabilidade desses parceiros de jogo serem pessoas que nos são totalmente estranhas, o que também acarreta alguns perigos.
Mas os problemas não acabam aqui. Nem o trabalho do autor e da sua equipa, pois a tendência é para estes problemas se agravarem com o aparecimento dos companheiros digitais de Inteligência Artificial, a que os adolescentes também começam a recorrer e a ficar dependentes. Este livro pede assim uma sequela, que, pelo menos para já, tem seguimento na conta substack After Babel, criada pelo autor e pela sua equipa.

Imagem retirada de um dos artigos presentes no After Babel sobre os adolescentes e os “companheiros” de IA.
Em suma, estamos numa época em que as crianças são superprotegidas em relação ao mundo real (evitando, dessa forma, possíveis “dores de crescimento” e consequências resultantes de alguns erros que cometam ao longo desse percurso, mas que as forçam a crescer), em contraponto com uma abertura excessiva ao digital e um aumentar de tempo passado no ecrã (tempo que rapidamente escala devido à capacidade das apps para explorar a psicologia humana, resgatando a nossa atenção e cimentando o vício e a dependência), seja nas redes sociais, nos videojogos, ou em qualquer outro sítio acessível na internet, espaços esses que carecem de uma séria regulamentação em relação aos menores.
Esta falta de controlo, como salientada pelo autor, erradica a ordem de crescimento que, com mais ou menos defeitos, acontece no contacto com o real e que pode ainda ser descortinada nas gerações mais velhas. Desde o brincar na infância, passando pelo paulatino acumular de responsabilidades e pela abordagem de certos temas apenas em certas idades (que são sempre decisões passíveis de discussão para serem ajustadas às dinâmicas da sociedade), procura-se encontrar a ordem mais adequada a seguir. Ora, quando se trata do mundo virtual, isso não acontece. O acesso a determinados ambientes, que podem ser mais nefastos ao crescimento e amadurecimento dos mais novos, é garantido, na maioria dos casos, a qualquer indivíduo, independentemente da sua idade, sem grandes regras ou impedimentos, ou com obstáculos relativamente fáceis de contornar. Desta forma, o desenvolvimento “dos miúdos”, quando se verifica, passa a ser completamente aleatório e dependente das vontades de quem programa os algoritmos e dos influencers que “vendem a alma” para fazer as vontades desses mesmos algoritmos e que, tantas vezes, se tornam os ídolos e os companheiros das crianças, em substituição do brincar real de outrora.
Só mesmo para terminar, convém não esquecer que estas novas gerações não são como as suas antecessoras, no sentido em que já nascem completamente rodeadas pelo digital. Anteriormente, ainda havia um equilíbrio entre as partes e era possível comparar experiências reais e virtuais, a fim de tentar perceber como estas nos moldam e afectam. No caso da “geração ansiosa”, ao passar uma parte muito significativa do seu tempo em experiências virtuais, esta tem apenas uma pequena amostra do real, o que dificulta ainda mais essa percepção e distinção entre os dois ambientes. Estou em crer que nós compreendemos muito melhor as coisas quando lhes conseguimos juntar experiências vividas, pelo que talvez seja um bom primeiro passo começar por resgatar mais tempo diário para o “real” e menos para o “virtual”. E digo isto também a pensar em escolhas futuras, por parte desta juventude, sobre onde passar a maior parte do seu tempo (e com quem), pois uma escolha sensata, por norma, requer bons conhecimentos de todos os cenários em perspectiva.
Artigo adaptado do originalmente publicado na minha conta no Goodreads.
Nota: O autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.
